segunda-feira, 30 de novembro de 2009
Conversas numa noite abafada
Era uma noite abafada. Juninho almofadava sua bunda magra diante de um monitor de computador velho. Esboços e embalagens de chocolate emolduravam um teclado banguela enquanto as mãos dançantes tentavam escrever a colclusão de um relatório final para a faculdade. Quando então, o garoto ao perceber uma ameaçadora presença que assistia e zicava sua pouca capacidade com as palavras, com surpreendente desafetação, dirige-se ao invasor...
- Relaxa, diabo...
- WHA'DA FUCK.. ?
- Tô falando pra relaxar, dá um descanço. Me deixa..
- Oopa! Agora é assim!? "me deixa!"?. Brother, vem cá. As coisa não tão mudada assim. Eu ainda sou o Diabo e vc não... Percebe o abismo?
- Tudo bem, mas ôu, vamo dá um tempo? Fazer diferente? Tentar dá uma mudada?
- Eu não tô acreditando... é a primeira vez que isso me acontece. Olha pra mim, o que você tá falando não existe meu! Fechou!? PÔrra..
- Você não tá entendendo... Eu falei pra ficar de boa hoje.
- QUÊ??
- Pra ficar de boa hoje..
- Eu não devo estar entendendo mesmo... isso não é possível!
- Então, vamo ficar de boa agora?
- caralho.. mano, com quem você tá falando? (não é possível..)
- Com o diabo, que tá aí todo estressadão, sem se esforçar um poquinho pra entender o q..
- Mano, que que você usou??
- Até agora? O bom senso?
- Velho, tudo bem. Eu to indo. Fica aí, tranquilo, ok? Eu to de boa, to cansado, essa conversa ta me deixando puto..
- É disso que tô te falando!!
- NÃO mano! Não! Vazei, vazei..
sexta-feira, 4 de setembro de 2009
Playground
Tudo escurece quando a noite fica tarde.
Num playground, crepúsculo há léguas...
Seus olhos talvez nunca tenham sorrido.
Confundindo sinais invento um paraíso.
Tudo escurece quando a noite fica fria.
Num playground, crepúsculo há milhas...
E a esperança sangra nos olhos, salgada ironia.
E o passado estampado em couro, mapa do tesouro que me guia.
Tudo escurece quando a noite fica clara.
Num playground, crepúsculo é outro dia...
Ninguém brinca no escorrega, ninguém dá risada no gira-gira.
Sempre lembro e olho ao redor se ainda uma guria me espia.
sexta-feira, 26 de junho de 2009
No dia em que o sol esteve mais forte
No dia em que o sol esteve mais forte, e o vento trazia poeira e sal e os pássaros pareciam cantar em silêncio de boca aberta e sem fôlego nem pra dizer que já não conseguiam dizer, arranha céus e automóveis também calaram, em respeito ao momento. Um caos silencioso parecia bradar alguma coisa dentro de cada filho daquela selva cinza avermelhada.
Daquele dia, a noite foi morna, e centenas de mosquitos lançaram-se às luzes. Solitários, pois nem pássaros, nem gatos, nem nada apareceu para incomodar. No dia seguinte, houve neve e centenas de milhares de pessoas não acordaram para ver. Um sono tranqüilo e contido, quase uma vertigem.
Trechos de famílias inteiras viram dos seus nos leitos, e nada puderam fazer. Havia respeito ao silencio. No terceiro dia, uma gota de cada vez fez preencher cada lacuna, enxurradas encharcaram e carregaram tudo para bem longe. No quarto dia os homens perceberam que na Terra eram poucos de cada espécie. Quase lembraram de uma história bíblica, mas preferiram esquecer. Não estavam, realmente, sós, mas conheciam bem, agora, sua companhia.
sábado, 13 de junho de 2009
Era um bardo, um louco e um rouxinol
- Boa noite.
- Acho que vai chover.
- Muitas núvens no céu?
- Não não, é o cheiro...
- (risos) E como é o cheiro?
- É o cheiro da véspera de um outono.
- O cheiro de um prólogo.
- Shhiu.. Tão vendo? A terra transpira...
- ... Como quem ensaiou muito para o cabaré.
- Se é cabaré, é para o gosto de poucos.
- Nem todos gostam de se molhar, embora apreciem uma umidade. (sorriso)
- A mãe está excitada! Levaremos alguns bolinhos e autoridades!
- (...)
- Devo partir, penas umidas não levam o canto aos céus.
- Franguinho...
- (...)
- Tem coisa que a chuva aprimora; clima chuvoso, clima formoso.
- Clima chuvoso, clima rugoso.
- (...)
- Ih, começou.
- Putz...
- É gente, todo prólogo leva a uma história. É o encanto que te leva a ler, ou a se molhar...
- O cheiro toma todo o lugar, e, se define como primavera o seu destino, me lançará em breve como folha velha contra o chão.
- Me avisam quando parar de chover?
por Briccio, IdEgo e Wartera
quarta-feira, 3 de junho de 2009
Psicrônica
Há dias atrás amanheci com um punhal invisível dentro de minhas costas. Fincado pouco acima do centro de minha espinha, à direita. Como uma vingança extremamente sutil.
Passei horas desde então tentando decifrar segredos, rastros e pistas de um crime irracionável. Olho para trás e não vejo nada, levanto um ombro e sinto metade das costas sofrer da agressão.
Dói em cada perímetro, irradia daquele centro e tange o pescoço, as costelas e, se bem me lembro da última vez que aconteceu, arderá até atingir toda as costas, como veneno. Sim, é a segunda vez, segundo golpe de lâmina, que, como este, não encontrara autor, um vilão ou responsável.
As pistas são efêmeras, uma dor que cresce por noites e um amanhecer que dissipa todo o ocorrido. Na outra ocasião, tão repentinamente fora enterrada o fio invisível em minhas costas, da mesma maneira fora puxada, se foi. Uma única circunstância acompanha a estranha desaparição: uma noite molhada.
Posso seguir tal pista por aqui ou por acolá, não há mais que dois caminhos. Ou tudo é fruto de um acaso fisiológico, uma glândula esfaqueada por engano e que agora sangra por toda direção seu líquido dolorido. Ou, senão, trata-se de um embuste espiritual, uma vingança daquela parte mais incontrolável de mim mesmo: o espírito. Penso isso pois sei que andei ignorando pedidos nada carnais...
Os homens são formados não por duas, mas quatro partes. Duas delas são as conhecida alma e corpo. Mas as outras duas são uma confusão daquelas, sua respectiva metade autônoma, autoritária e geniosa. Recuse um pedido de um desses quartos e entenderá que eles existem. Muito se pensa que é possível domar o corpo, ou que o espírito significa as suas próprias vontades. Não é bem assim. Existe aquele corpo e aquele espírito absolutamente dócil, que faz o que você quer, mas há uma metade sacana desses, toda "mimimi" que faz o que bem entende, e se contariada te trata com muito pouco respeito...
Creio ter sido um desses que me atingiu. Um espírito delinquênte, vingativo, mimado e, não fosse só isso, armado! Só pode ter sido isso, pois lembro ter dito 'não' a um pedido absolutamente entusiasmado, como de uma criança esfomeada.
Devo em breve ter uma conversa com um pedaço de mim. E quem sabe amanhã me restem 3/4..
sexta-feira, 15 de maio de 2009
Ressaca
E quando cruzaram olhares, um meio céu se fez trovão. Pássaros voaram para qualquer lugar pois já não havia leste ou norte. Olhos azuis de um tom quase letal, pele alva como lápide de mármore, sorriso de duende, intenções de capricórnio. Cada detalhe traçado trançava-se a um outro ser cujos olhos brilhavam púrpura, mãos diamante, cabelo solto ao ombro codificando esperança, intenções de minotauro. Dois segundos e quase meio milhão de violinos ensaiaram toda a superfície de uma vida. Vendetas contra o vento, verdades quase ditas. Nenhum desespero sob os céus, calmaria nos mares, nuvens em agonia...
segunda-feira, 27 de abril de 2009
Haverá escuridão quando então, depois de um dia inteiro, o vicio deixar de ser ouvido.
Haverá brasas frias e ainda muito o que andar, um dia de viajem e quem sabe o mar.
Haverá um verdadeiro rio de lágrimas, fúria de sereias, vento de babuíno e sirene de trombetas.
Haverá enfim um dia luminoso, comum a toda gente, feito de véspera e esperança, uma nau ausente.
E quando os olhos chegarem de longe e abrirem-se por fim, tantos se encontrarão, um mundo se virará contra correntes nem um pouco marítimas e nenhuma verdade será das gentes.
Tudo pertencerá a um único e improvável momento, um instante razoável tão pouco plausível quanto tudo que fora dito.
As palavras tropeçam das caldeiras, jorram para fora, escapam para dentro e no fim resta rastro distorcido, nenhum sinal de trilho, nada disso.
Somente o vento.
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